• Ateísmo e Liberdade: Uma Introdução ao Livre-Pensamento

    Deus, religião, moral, origem e sentido da vida, livre-arbítrio: em Ateísmo e Liberdade, assuntos fundamentais são postos à luz da razão, em uma tentativa de esclarecer algumas das mentiras e verdades que nos cercam.s.

  • A Religião do Cérebro - PDF

    A Religião do Cérebro é um livro revolucionário. Seu autor, o médico Raul Marino Jr., um dos maiores especialistas em neurocirurgia do país, discute um tema polêmico e que divide médicos e cientistas .

  • Porque Não Sou Cristão

    Porque Não Sou Cristão - Este é considerado um dos mais blasfemos documentos filosóficos jamais escritos..

  • Livro O Anti-cristo

    O Anticristo" apresenta críticas ao cristianismo e a seu modo de valorar. Nietzsche expõe suas opiniões contra as práticas cristãs .

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Morreu, acabou. A vez em que a Bíblia esteve certa



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As Fitas do Ateísmo: Daniel Dennett


 


As Fitas do Ateísmo" (The Atheism Tapes) é uma série documental da BBC de 2004, apresentada por Jonathan Miller, que explora o ateísmo através de entrevistas aprofundadas com intelectuais, cientistas e filósofos como Daniel Dennett, abordando temas como a moralidade sem Deus, a ilusão da consciência e a busca por um propósito no universo.



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Tédio


 


Há necessidades que possuem realidades por detrás, como a fome, a sede, o sono, a respiração; e há necessidades que são representações de realidades, como o sexo, a amizade e o lazer. A fome, por exemplo, não pode ser driblada em circunstância alguma, pois ela reflete uma necessidade real; nossos corpos não funcionam sem energia; não há sequer sentido em considerar a possibilidade de vivermos sem nos alimentar. Então, mesmo se suprimirmos o sinal da fome, vivendo num agradável estado de constante saciedade, eventualmente morreremos de inanição. 

Agora pensemos nas necessidades que são meras representações. Se suprimirmos o lazer de nossas vidas — ou o sexo, ou as amizades —, de tal forma que essa carência não seja sentida por havermos suprimido esse sinal — como fizemos com a fome —, não haveria quaisquer consequências. Nessa situação, com tais necessidades satisfeitas, viveríamos com a sensação de que somos turistas, e nunca nos ocorreria pensar que talvez precisássemos de lazer; igualmente, não faríamos sexo porque já nos sentiríamos sexualmente satisfeitos o tempo todo. Então, se já vivemos satisfeitos, que falta tais coisas fariam? Nenhuma, pois não são necessidades de fato — pelo contrário, são necessidades que o próprio cérebro cria, e que o próprio cérebro decide quando foram satisfeitas. Assim, do ponto de vista biológico, talvez possamos entender tais necessidades metaforicamente, pensando nelas como a fome de um organismo que na verdade não precisa comer, mas mesmo assim almoça todos os dias a fim de socializar-se durante as refeições; ou seja, são estratégias que nos trazem benefícios indiretos, mas que em si mesmas são vazias — algo próximo de rituais. Pois bem, a conclusão é que o homem não tem necessidade real da sociedade, pois poderíamos, por exemplo, morar sozinhos num campo, vivendo daquilo que plantamos. Do ponto de vista físico, trata-se de uma vida perfeitamente autossustentável; se essa seria uma vida emocionalmente agradável, isso é outra questão. Mesmo assim, se houvesse comprimidos supressores de sociabilidade, como há supressores de apetite, o fator emocional estaria resolvido por completo, sem quaisquer riscos envolvendo uma possível inanição emocional.

 Segue-se que, do ponto de vista do indivíduo particular, a forma como alcançamos essa satisfação é puramente arbitrária, e isso pelo simples fato de que nossa necessidade de socialização é apenas uma representação — claro que com base genética, mas mesmo assim uma representação, pois tudo ocorre no cérebro, e nele apenas. Tendo isso em mente, podemos concluir que, exceto em seus primeiros anos de vida, o homem não precisa da sociedade, não literalmente. Desse modo, se não há uma necessidade literal da sociedade, por que as pessoas buscam a socialização? Para satisfazer algum tipo de carência, evidentemente. Tentemos ilustrar a ideia com uma visão prática. Imaginemos que estejamos nos sentindo solitários. O que isso significa? Nada; uma sensação de mal-estar qualquer; uma angústia. Pois bem, saímos à rua, conversamos com alguns conhecidos, e eventualmente passamos a nos sentir bem. O que isso significa? Nada; uma sensação de bem-estar qualquer; um prazer. Imaginemos agora que, em vez de sairmos em busca de companhia, houvéssemos ido ao cinema sozinhos. Sentamo-nos na poltrona por duas horas, assistimos ao filme, e eventualmente passamos a nos sentir bem. O que isso significa? Nada; uma sensação de bem-estar; um prazer. Idem se houvéssemos nos sentido bem lendo um livro, praticando exercícios ou nos distraindo com uma atividade qualquer. Nessa situação, podemos perceber que nossa satisfação na verdade não depende das pessoas em si, mas meramente o fato de elas se prestarem como um objeto do qual possamos nos ocupar, assim como podemos nos ocupar de livros e filmes. Então, se temos essa necessidade de nos ocuparmos, pessoas são um meio, filmes e livros são um meio. Se temos amigos inteligentes porque gostamos de debater ideias, e se livros nos dão esse mesmo prazer intelectual, dá no mesmo se usamos livros ou amigos. Será inevitável pensarmos que, apesar de funcional, essa é uma visão destituída de significado; mas a falta de significado é uma ideia com a qual já deveríamos estar familiarizados: significados são crendices. 

O fato é que nossas necessidades sociais são todas puramente psicológicas; então, se pudermos satisfazê-las sozinhos, a solidão se revela uma possibilidade perfeitamente tangível e emocionalmente equivalente à socialização, não uma segunda opção miserável. Socializar-se é ocupar-se de pessoas, e gostamos disso não pela companhia, mas pelo alívio do tédio, que é exatamente o mesmo prazer que intelectuais encontram na reflexão — razão pela qual ambas as coisas tendem a ser mutuamente exclusivas. Desse modo, desde que tenhamos inteligência suficiente, a intelectualidade apresenta-se como um ótimo meio de nos esquivarmos de uma das torturas que mais atormentam a humanidade. Ademais, sabendo que o tédio torna a passagem do tempo extremamente lenta, eis um bom critério para sabermos se dispomos de forças intelectuais suficientes para assegurar uma existência plena por meio da reflexão: quanto menos conscientemente sentirmos a passagem do tempo ao nos dedicarmos à intelectualidade, maior é nossa inteligência. Se reflexões filosóficas nos aborrecem, encontremos, de acordo com nossas capacidades, outro modo digno de tornar a existência suportável. Porém, se as horas voam enquanto pensamos, sejamos gratos: recebemos da natureza um presente inestimável.


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JESUS: Uma Invenção do Império Romano


   


Durante muitos anos, segui a doutrina imposta pela igreja. Mas na época meu espírito crítico não era tão crítico quanto hoje; eu até acreditava em deus, Jesus e outras crenças ou castas hereditárias. Estas coisas que se passam de pai para filho, e cada filho se torna mais uma das vítimas.

  Mas aí eu comecei a raciocinar, a procurar fontes históricas que não fossem a bíblia. Entre tantas leituras, encontrei Nietzsche. Meu conceito de universo foi mudando, mas não exatamente por causa de Nietzsche. Nele apenas me apeguei em seu raciocínio. Em muitas coisas discordo dele. Se eu já acreditava na teoria evolucionista, em oposição à criacionista, em finais dos anos 2000, passei a negar a existência de um deus. E nisto Nietzsche foi fundamental.

Mas não neguei Jesus. Não historicamente. A princípio realmente existiu um líder religioso no início da era cristã que pregava na região de Israel e que atendia pelo nome de Jesus. Só que a vida dele é bem menos grandiosa do que a fama que foi criada em torno de seus feitos. É mais ou menos como eu vou resumir a seguir:

 José e Maria chegaram a Belém, foram até um estábulo e Jesus nasceu. Aí quando a criança tinha dois anos, Heródes mandou matar todas as crianças com idade menor ou igual dois anos. A família de Cristo fugiu da cidade.

Com doze anos, Jesus foi até Jerusalém com os pais e arrumou uma confusão com alguns religiosos. Aos trinta anos ele foi batizado por João Batista e pirou. Se com doze anos ele achava que era filho de Deus, com trinta ele tinha certeza disso. Aí ele decidiu virar religioso e dizer que a verdadeira alternativa era o Judaísmo.

  Assim como outras figuras históricas (Buda, Confúcio, Inri Cristo), Jesus conseguiu arregimentar seguidores. Doze, pra ser exato. Na verdade eram uns desocupados, ou puxa-saco, que foram nomeados apóstolos. Então Jesus ficou três anos “fazendo” cegos enxergarem, paralíticos andarem, portadores de hanseníase ficarem com a pele boa, contando histórias e ditando seus ensinamentos a doze pessoas. Mas doze pessoas era um número pequeno. Nazaré tinha ficado pequena pro filho de Maria. Aí numa sensacional jogada de marketing ele decidiu ir pra Jerusalém pra expandir seu negócio.

 O problema foi que ele chegou a Jerusalém no meio do Pessach, a popular Páscoa judaica, montado num burro e enaltecido por uma meia duzia. Não contente, foi até o templo, expulsou um pessoal que vendia umas paradas e foi dizendo que era filho de Deus. O pessoal do templo ficou bolado e mandou prendê-lo. Levaram-no até Pôncio Pilatos que disse para o povo fazer o que quisesse com Jesus. Aí mataram e crucificaram-no, algo que na época era um procedimento comum feito com quem se metia a besta.

Então tinha tudo pra dar errado. Um cara que tinha juntado 12 seguidores em toda a sua vida de pregador e que não deixa nenhuma obra escrita (há quem afirme que Jesus era analfabeto) chega numa das maiores cidades do mundo na epoca , é preso, condenado e executado. Tinha tudo pra ser esquecido pelo povo. Mas aí entra Paulo de Tarso, o maior marqueteiro da história. Ele pega a história de Jesus, bota umas coincidências divinas aqui, uns acontecimentos messiânicos ali, umas tentações demoníacas acolá, escreve umas epístolas e pronto: surgiu o Novo Testamento.

 Com uma coleção nova e inteirinha de livros que falavam de um deus que pregava o amor, a compreensão e a fraternidade em oposição àquele que mandava pragas, inundava o mundo e mandava as pessoas sacrificarem os próprios filhos, os cristãos foram aumentando seu número nos arredores de Galiléia.

 Só que isso não era suficiente. Durante anos os Cristãos foram perseguidos por Roma, exatamente até 335 dc quando o imperador romano Constantino por pressão cedeu liberdade religiosa. Mas era uma liberdade vigiada. A religião oficial ainda era a de Roma, os deuses, porque não queria uma nova religião atrapalhando o Império.  Mas isto durou só até o século IV, quando Flavius Theodosius (último imperador romano), para salvar o governo romano, decidiu que os cristãos não seriam mais comida de leão. Aí pra se tornar a religião oficial de um terço dos humanos foi um pulo. Tipo uns 1600 anos.

  Mas aí chega o ponto que eu queria: se não fosse por Paulo e Flávio, o cristianismo teria morrido. Jesus teria tido os seus doze seguidores – um pouco menos que Inri Cristo – durante alguns anos e depois tudo teria acabado. Se não fossem os relatos dos evangelistas – que foram escritos mais de três décadas após a morte de Jesus por quatro pessoas que não conviveram com o Messias e que colheram depoimentos de pobres e analfabetos – e as cartas de São Paulo, teríamos hoje menos cristãos do que hinri...De fato, Jesus era um fracassado. Apanhou pouco.


  

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O que foi o cativeiro babilonico



Estes conteúdos disponibilizados em domínio publico são de enorme valor para o conhecimento da nossa história e para possibilidade de percebermos, sob o prisma histórico, como é que viemos aqui parar em termos de crenças, mitos e religiões.

Este é um conteúdo de alto valor e devemos justamente remunerar o professor por isso na esperança que seu trabalho possa vingar cultural e socialmente e contribuir para ajudar a humanidade no seu autoconhecimento, na capacidade de distinguir entre realidade e fantasia e contribuir para que o ser humano se torne já hoje um ser mais lúcido para que entre num regime que ainda não se iniciou em massa que seria o de substituir a ainda instalada cultura e consciência caracterizadas pelo delírio em crenças alucinadas  por uma cognição que pudesse ser caracterizada pela noção que na verdade somos desconhecedores da origem e natureza do mundo, e isso poderia quem sabe pavimentar um melhor caminho para uma mais humilde atitude enquanto experimentamos esta experiência misteriosa que é a existência e vida neste real neste planeta com estes corpos e esta cognição tão desalinhada e enferma.

Obrigado professor. nunca são demais os agradecimentos


O Cilindro de Ciro – Edito permitindo os povos de voltarem ao seu país de origem, Museu Britânico, Londres

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O que o talmud diz sobre Jesus.


 A Discussão sobre as Menções de Jesus no Talmude

Já na primeira leitura dos trechos do Talmude que mencionam Jesus é possível notar o desprezo dos rabinos por ele e pelo Cristianismo. Na visão deles, Jesus não era uma figura religiosa importante e o Cristianismo uma seita insignificante. Jesus é mencionado em passagens breves, geralmente exemplificando um autor de um mal feito, ou como exemplo de um pervertido. O desprezo é tanto que ele chega a ser mencionado às vezes como peloni (uma certa pessoa), ou em outras passagens nenhum nome é mencionado em episódios claramente referentes a ele, até mesmo em trechos de manuscritos que não foram censurados.

Por conseguinte, este desprezo dificulta a identificação da menção de Jesus nas passagens mais implícitas, dificuldade que divide os pesquisadores deste assunto naqueles que são minimalistas, ou seja, aqueles que atribuem um pequeno número de passagens referentes a Jesus, os maximalistas, isto é, aqueles que atribuem um grande número de passagens a Jesus e, por fim, os moderados, que são aqueles que atribuem uma quantidade moderada, permanecendo entre os dois extremos. Como resultado do caráter implícito na menção de Jesus, uma calorosa discussão sobre este assunto surgiu entre os pesquisadores. Com base neste debate, as passagens referentes a Jesus podem ser divididas em passagens explícitas, onde ele é mencionado diretamente pelos nomes Yeshu (Jesus) e Yeshu ha-Notzri (Jesus o Nazareno) e as passagens implícitas, onde ele é mencionado por nomes tais como: ben Stada (filho de Stada), ben Pandera(filho de Pandera), Balaão ou peloni (uma certa pessoa). 

Os trechos censurados nos manuscritos acrescentam ainda mais dificuldade na identificação da menção sobre Jesus. Portanto, não será possível seguir neste estudo somente a tradução inglesa da versão impressa Soncino, uma vez que esta reproduz os trechos censurados, mas sim, para efeito de maior abrangência, o cotejo de diferentes manuscritos feito por Peter Schäfer em seu livro, o que torna possível a identificação dos trechos censurados, bem como o conhecimento da redação original nos trechos dos manuscritos que escapuliram da fúria dos censores cristãos 


A Família de Jesus (Yeshu)


Antes de mencionar as passagens no Talmude Babilônico que mencionam os familiares de Jesus (Yeshu) é preciso informar a versão judaica do seu nascimento. Muito diferente dos evangelhos canônicos, nas versões judaicas, desde o registro do pensador grego Celso e passando por algumas versões do Sefer Toledoth Yeshu compiladas na Idade Média, ele não nasceu de uma mãe virgem, mas sim de uma relação adúltera entre sua mãe Miriam (Maria) e o soldado José Pandera, pois ela já estava comprometida com um noivo, portanto Jesus foi um filho bastardo. Então, Peter Schäfer explica porque o nome “Stada” é também atribuído a sua mãe Miriam (Maria): “Stada é um epíteto que deriva da raiz aramaica/hebraica sat.ah/sete (desviar do caminho correto, extraviar, ser infiel). Em outras palavras, sua mãe Miriam era também chamada de “Stada” porque ela era uma sotah, uma mulher suspeita de adultério, ou melhor, condenada por adultério” (Schäfer, 2007: 17). Já seu pai biológico, José Pandera, era um soldado que residia perto da casa de sua mãe Miriam, então ele, atraído por sua beleza, a seduziu. Ela engravidou e em seguida deu à luz um filho bastardo, quem ela batizou com o nome de Yeshu (Jesus).

Esta tradição parece anteceder ao Toledoth Yeshu e ao Talmude, uma vez que é relatada na obra de Celso, onde “a mãe de Jesus é descrita como tendo sido expulsa de casa pelo carpinteiro com quem ela estava comprometida, visto que ela foi condenada por adultério e teve um filho com um certo soldado chamado Panthera 

O desprezo dos rabinos por Jesus era tanto, nos primeiros anos do Cristianismo, que no Talmude Babilônico, eles se envolvem nas seguintes dúvidas e confusões: “Ele era o filho de Stada e não o filho de Pandera? Rabino Hisda disse: o marido era Stada e o amante Pandera. Mas, não era o marido Pappos ben Yehuda e sua mãe Stada? Sua mãe era Miriam, a mulher que deixou o cabelo crescer.  Esta foi expulsa de casa por ter sido infiel ao marido”  


Jesus como tolo


Antes de citar a próxima menção de Jesus no Talmude, é preciso informar o contexto da qual ela foi retirada. Diferente dos evangelhos canônicos, cujos milagres de Jesus são de origem divina, a tradição judaica regista duas versões sobre a origem dos poderes mágicos de Jesus. A versão registrada em alguns textos do Toledoth Yeshu informa que Jesus, a fim de obter poder, roubou o conhecimento do Nome Inefável de Deus no templo de Jerusalém, através da trapaça de escrever o nome em um pequeno pedaço de pergaminho e escondê-lo em um corte feito na sua perna, a fim de não ser surpreendido pelos leões que guardavam a saída do santuário e faziam com que aqueles que memorizassem o nome ... o pensador grego Celso, afirma que Jesus aprendeu sua magia no Egito, quando trabalhou naquela região como servo. “Ela (Maria) perambulou por um tempo, então ela desgraçadamente deu à luz Jesus

Foto reproduzindo como seria a família de Jesus, segundo a versão judaica.


um filho ilegítimo, que tendo trabalhado como servo no Egito, em virtude da sua pobreza, adquiriu alguns poderes miraculosos, dos quais os egípcios se orgulham muito retornou ao seu próprio país, altamente entusiasmado por causa deles, e por meio destes poderes proclamou-se um deus”   Esta última versão é a que é mencionada no mesmo tratado Shabbat 104b, durante uma discussão sobre a permissão ou a proibição de se escrever durante o dia do Sabá. Jesus (Yeshu) é mencionado com um exemplo de quem desrespeitou esta proibição. “Mas, ben Satra (Stada) não aprendeu apenas de tal modo”? Ou seja, ele não usou tatuagens sobre seu corpo como uma ajuda para facilitar a aprendizagem (do Nome Inefável), por isso não eram elas (as tatuagens) claramente letras e por isso proibidas de serem escritas no Sabá? Mais adiante Jesus é ofendido da seguinte maneira: “Mas, ben Stada (Jesus) não trouxe bruxaria do Egito por meio de tatuagem sobre sua pele”? Daí três rabinos desconsideraram esta objeção com o contra-argumento de que ben Stada (Jesus) era um tolo, e que eles (os rabinos) não deixariam que o comportamento de um tolo influenciasse a implantação das leis do Sabá”  


Jesus como um Discípulo Inconveniente


Outra menção de Jesus (Yeshu) no Talmude Babilônico aparece no Tratado Senhedrin 103a, em uma passagem comentando um verso dos Salmos (91.10): “… nenhuma praga aproximará a sua tenda; que você não tenha um filho que publicamente estraga a sua comida, tal como Jesus o Nazareno  .

Peter Schäfer explica que a frase “estragar a sua comida” se refere a uma frase idiomática da época que significava “cometer uma ação inconveniente” (idem: 27). Então, Jesus é aqui citado como um exemplo de alguém que cometeu uma ação inconveniente.


Jesus Hostilizado pelo seu Próprio Mestre

Em outro episódio no Tratado Sotah 47a, ainda mais estanho aos textos canônicos e apócrifos, Jesus é excomungado pelo seu mestre (Yehoshua b. Perahya), quando ambos estavam em uma hospedaria e o mestre se sentiu atraído pela beleza da estalajadeira: “Ele (Yehoshua b. Perahya) levantou-se, saiu e encontrava-se em uma certa hospedaria. Eles (os hóspedes e os funcionários) prestaram-lhe grande respeito. Ele disse: “Como esta estalajadeira é bonita”! Ele (Jesus) disse: “Mestre, os olhos dela estão lacrimejantes”. Ele (Yehoshua b. Perahya) respondeu: “Você, discípulo perverso, você se ocupa com tal pensamento? Então, ele emitiu 400 sopros de shofar e o excomungou. Ele (Jesus) esteve diante do mestre diversas vezes e ele dizia: “Receba-me”, mas ele (Yehoshua b. Perahya) recusava dar-lhe atenção. Um dia, enquanto o mestre estava recitando a Shemá,  ele (Jesus) veio até ele (o mestre). Desta vez, ele (Yehoshua b. Perahya) desejou recebê-lo e fez um sinal para ele (Jesus) com a mão. Mas, ele (Jesus) pensou que ele (o mestre) queria dispensá-lo novamente. Ele (Jesus) saiu, arrumou um tijolo e o adorou. Ele (Yehoshua b. Perahya) disse a ele (Jesus): “Arrependa”, mas Jesus respondeu a ele: “Assim eu aprendi com você: quem quer que peca ou faça os outros pecarem é privado do poder de fazer penitência”. O mestre disse: “Jesus o Nazareno praticou magia, enganou e conduziu o povo de Israel ao erro”  

Tal como podemos perceber acima, é nítida a intenção dos rabinos de depreciarem o papel de Jesus como discípulo, bem como o de ridicularizarem a competência de Yehoshua b. Perahya como mestre.


A Execução de Jesus

Muito diferente da versão canônica, cuja morte de Jesus aconteceu na cruz, a versão do Talmude Babilônico relata que ele foi inicialmente dependurado e, em seguida, um arauto saiu anunciando, 40 dias antes, a sua execução por apedrejamento. Portanto, ao invés de ser crucificado, Jesus foi primeiro dependurado, para depois ser apedrejado até a morte. O relato aparece no Tratado Sanhedrin 43a: “Na véspera do Sabá, a véspera da Páscoa, Jesus o Nazareno foi dependurado (tela’uhu). E um arauto saiu 40 dias antes anunciando: ‘Jesus o Nazareno será apedrejado porque ele praticou feitiçaria (kishshef), instigou (hissit) e seduziu (hiddiah) Israel à idolatria. Quem quer que saiba de alguma coisa em sua defesa, que venha e a declare’. Mas, uma vez que eles não encontraram alguma coisa em sua defesa, eles o dependuraram na véspera do Sabá, a véspera da Páscoa. Ulla disse; ‘Você supõe que Jesus o Nazareno foi alguém por quem uma defesa deveria ser feita’? Ele foi um mesit (alguém que instigou Israel à idolatria), com relação a quem o Deus Misericordioso diz: ‘Não mostre compaixão por ele e não o proteja’ (Deuteronômio, 13.09). Com Jesus o Nazareno foi diferente, pois ele era próximo ao governo”  


Página de um manuscrito do Talmude com trechos apagados pela censura


Novamente, a menção de Jesus (Yeshu) acontece no meio de uma discussão, desta vez, sobre o procedimento da execução de um condenado, como um exemplo de como o rito de execução deve ser executado. P. Schäfer explica que a frase final “Com Jesus o Nazareno foi diferente, pois ele era próximo ao governo”, significa que os judeus tomaram as mais cuidadosas precauções, pois Jesus tinha amigos no alto escalão do governo, talvez uma referência ao interesse da esposa de Pôncio Pilatos pelas informações vindas do povo de que Jesus realizava milagres.
Este episódio talmúdico deixa clara a reação dos rabinos à alegação dos cristãos de que Jesus foi acusado por falsas testemunhas e que não teve tempo de se defender, por isso a introdução do personagem do arauto com seu anúncio da execução com 40 dias de antecedência.

  
Os Discípulos de Jesus

Muito diferente dos evangelhos canônicos que enumeram doze discípulos principais de Jesus (Mt, 10.01-4; Mc, 03.13-9 e Lc, 06.12-6), o Talmude Babilônico, no tratado Sanhedrin 43a-b, enumera apenas cinco discípulos. A passagem diz: “Nossos rabinos ensinaram, Jesus o Nazareno teve cinco discípulos, eles são: Mattai, Maqqai, Netzer, Buni e Todah”. Note que, exceto o nome Mattai, o qual se assemelha ao nome Mateus, os demais não têm semelhança com os nomes dos apóstolos mencionados nos evangelhos. Ademais, esta passagem informa que os cinco discípulos morreram juntamente com Jesus. Talvez uma tentativa de desmentir a versão canônica de que eles testemunharam a ressurreição de Jesus após a morte e, consequentemente, com isso colocar em dúvida a ocorrência deste fenômeno.
Jesus no Inferno ao invés do Céu

Em uma passagem bizarra, Jesus é mencionado no Talmude Babilônico, como um dos três maiores vilões da história judaica, juntamente com Tito, o destruidor do Segundo Templo, e com Balaão, o profeta das nações. Todos três estão no inferno, onde estão cumprindo punição por seus malfeitos. A base da história e a passagem na Mishná, que lista aqueles terríveis pecadores que não têm mais chance na vida futura. O interlocutor é Onqelos, um personagem que estava diante de se converter ao Judaísmo. Depois de entrevistar Tito e Balaão, “ele (Onqelos) foi e trouxe Jesus o Nazareno (Yeshu ha-notzri) de sua sepultura através da necromancia e lhe perguntou: Quem é importante naquele mundo (no inferno)? Ele (Jesus) respondeu: Israel.
Onqelos: Então, que tal juntar-se a ele?
Jesus: Busque o bem-estar deles, não busque o mal deles. Quem quer que os toque, é como se tocasse a pupila de deus.
Onqelos: Qual a sua punição?
Jesus: Com excremento fervendo.
Pois o mestre disse: Quem quer que zombe das palavras do mestre é punido com excremento fervendo. Venha e veja a diferença entre os pecadores de Israel e os profetas das nações gentis” 
A conversa é muito estranha, Jesus já está morto, sofrendo punição no inferno e é trazido de sua sepultura, através de magia, a fim de responder algumas perguntas. A intenção de ridicularizar Jesus é clara, ele é punido com excremento fervendo. Ademais, a pretensão de desmentir a ocorrência da ressurreição é implícita, pois, ao invés de ressuscitar e de subir ao céu em seguida, ele está no inferno, cumprindo punição. As explicações sobre esta passagem  são também confusas 


Considerações Finais

Tal como na coleção do Sefer Toledoth Yeshu, as menções de Jesus no Talmude Babilônico também têm pouco valor histórico, visto que elas se ocupam mais da natureza da afronta e da polêmica contra o fundador de uma seita odiada, do que de relatos objetivos de credibilidade histórica, portanto estes relatos não são documentos históricos. Dizer assim não significa que toda credibilidade história deve então ser atribuída aos textos canônicos ou, muito menos, aos apócrifos. Estes também não são documentos históricos, senão veículos de um incipiente programa catequético destinado a exaltar Jesus, através da composição de narrativas que combinavam fatos e ficções, juntamente com o objetivo de persuadir e de arrebanhar seguidores nos primeiros anos do crescimento da seita cristã. Portanto, estão mais para textos catequéticos do que para textos documentários.

O valor histórico que estas menções hostis nos deixam é o de conhecer o grau de rivalidade sectária que envolve a relação entre as religiões. Ou seja, o que uma religião é capaz de inventar a fim de depreciar o fundador de uma religião rival. Em contrapartida, os cristãos fizeram muito pior com os judeus durante a Idade Média.

Diante de tanta animosidade e de tanta rivalidade nos momentos de surgimento e de crescimento inicial das religiões, os historiadores ficam impossibilitados de saber o que é fato, ou o que é exaltação, ou o que é manipulação ou o que é refutação, ou o que é reelaboração no momento da composição ou da compilação dos textos de cada corrente. 
No atual estágio dos estudos históricos sobre Jesus, o que é possível afirmar, com certa segurança, é que, de todas as narrativas, os textos canônicos são os que carregam o maior número de sinais mais próximos da historicidade, apenas isto, em comparação com as narrativas apócrifas, talmúdicas, mesmo assim, longe de ser um relato inteiramente histórico, vigora consenso entre os estudos históricos mais rigorosos que o Novo Testamento, estritamente falando, reproduz uma intrincada combinação de história e mito, tal como o restante da Bíblia. Portanto, a grande tarefa dos historiadores bíblicos tem sido, desde muitos anos, identificar o que fato e o que é mito na narrativa bíblica.

Enfim, para concluir, descredenciar as menções anticristãs como providas de historicidade não significa credenciar automaticamente os textos canônicos com validade histórica, pois todos os lados tinham os seus motivos para deformar a história no momento da composição.